quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Brasil - Nacionalismo ou civilização?



Em conseqüência do que denominou-se ufanismo nacional advindo da descoberta do pré-sal e o estabelecimento de marcos regulatórios para sua exploração, seguidos das vitórias para a realização da Copa do Mundo e das Olímpiadas, foi colocado em debate as semelheanças e distinções entre os governos Getúlio Vargas, JK e a ditadura militar.

Otimismo comodista para uns, construção da cidadania para outros...

A tônica desses debates muitas vezes centra-se na questão do nacionalismo e suas inevitáveis e pertinentes associações ao nazi-fascismo.

A proposta é discutir a formação da identidade social no Brasil.

A partir da década de 30 acelera-se o processo de industrialização, com rápida urbanização alterando

siignificativamente o quadro social anteriormente caracterizado pela sociedade patriarcal rural, baixa

freqüência escolar .

Camponeses miseráveis atraídos pelas oportunidades de emprego afluíram para as cidades, orgulhosos

de suas novas funções de baixa qualificação e subalternas. Mas já podiam consumir, melhorar de vida, algo que o sistema agrário jamais lhes permitiu.

Nos anos 30 a industrialização se deu sob a tutela do Estado autoritário e nacionalista de Getúlio e vinculado a indústrias de base e atrativas oportunidades de investimento, que concretizaram-se no governo JK

marcadamente através das indústrias de bens de consumo, utilizando-se da estrutura estatal, em atendimento ao mercado emergente.

Multinacionais instalaram-se no país objetivando bons negócios e rápidos ganhos.

A cultura não escapa a esse processo, saltando da desinformação à cultura da TV.

Em suma, o país agrário e patriarcal salta sem ilustração, sem identidade, sem referenciais de autonomia, liberdade e igualdade para uma sociedade utilitarista e mercantil perpetuando as desigualdades, uma descontinuidade no processo de desenvolvimento.

As conseqüências não podiam ser outras: luta pela reforma agrária que reduzissem a migração e a manutenção da reserva de mão de obra barata; por melhorias das condições de trabalho e salário,

pressionadas para baixo por esse manutenção; por reformas do ensino que erradicassem o analfabetismo suprissem a formação que quebrasse a lógica mercantilista...

Resumindo: tratava-se da luta entre duas formas de capitalismo: o selvagem, sem mobilidade e o

Iluminado, participante.

O golpe de 64 representou a vitória, pela força, da primeira forma, mantendo o êxodo rural, rebaixamento do salário mínimo e “valorizando” a cultura: as reformas do ensino transformaram-se em

instrumento do mercado; os meios de comunicação de massa americanizam-se,tornam-se instrumentos

de louvação ou são censurados, nas mais variadas formas de censura. Gerou-se uma informação privada em detrimento da educação.

Substituiu-se a hierarquização patrimolista pela empresarial.

A identidade nacional não se forma, pulando a etapa de consolidação da civilização para as grandes massas.

Assim, foi possível transformar as diretas já em eleição indireta de Tancredo e Sarney, desembocar a Constituinte na eleição de Collor e submeter-se passivamente aos ditames neoliberais.

Não formaram-se cidadãos, mas contribuintes e consumidores.

Uma nação sem identidade, eivada do elitismo colonizado que procura frear a mera modernidade civilizatória.

Não é de espantar que os meios de comunicação entendam como restrição à liberdade romper com essa dominação ideológica e se utilizem dos mais variados métodos de distorção, evitando a inclusão e a conseqüente liberação, a informação de qualidade que gera conhecimento e cidadania, para manter a forma de reprodução social nacional que privilegia o nacionalismo e a reprodução social de outrens.

Fonte: CARDOSO DE MELLO, J.M. & NOVAIS, F. Capitalismo Tardio e Sociabilidade Moderna.

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