quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Limitações no governo Lula

Acho imprescindível o idealismo que vejo em muitos militantes do PSOL e do PSTU (do atual PCB tenho pouco referencial, depois que ele entre centenas de rachas descambou para o PPS).

O mesmo idealismo que vejo em muitos militantes do PT.

Prefiro acreditar que todos estão empenhados na construção de uma sociedade mais justa, mais humana.

Mas, como em todo grupo, ainda que em torno dos mesmos objetivos, existem as diferenciações de caráter.

Mas a questão nodal das divergências entre as diversas tendências, dentro de um mesmo partido ou não, é a análise da conjuntura, a estratégia e a tática.

O idealismo se expressa em um vazio, um etéreo.

Mas não vivemos no etéreo, não vivemos numa redoma esterilizada, mas imersos numa realidade.

Ou como diria o barbudo que serve de base para a análise do capitalismo pelos próprios capitalistas hoje em dia, "os homens fazem sua história, mas não a fazem nas cirscuntâncias de sua escolha e sim naquelas herdadas e transmitidas pelo passado".

A análise que se faz dos movimentos e até mesmo dos governos socialistas também deve ser vista sob essa perspectiva histórica.

Certamente o stalinismo, o maoísmo, não significaram a concretização desses ideiais, porém podemos imaginar o que teria sido o capitalismo caso não houvesse essa "competição"?

Estaríamos lutando hoje por jornadas de 40/36 horas, maiores participação nos lucros, melhores condições de trabalho (ainda que trabalhemos hoje em condições infinitamente superiores às dos primórdios do capitalismo), e tantas outras melhorias? Ou ainda estaríamos trabalhando 10 horas por dia 7 dias da semana, sem qualquer direito além do salário miserável?

Também os movimentos não caminham em conjunturas fixas, imutáveis, não se joga sózinho. Os detentores do capital estão aí igualmente elaborando suas estratégias e táticas para se manter no poder, além de desenvolver técnicas que lhes permitam permanecer gerando lucro. E aí sua contradição, pois ao desenvolver essas técnicas para prescindir de trabalho humano, de pagar salários, direitos, ao mesmo tempo necessitam ter mais mercado, que dê resposta à eficiência da produção e retorno dos investimentos nessas novas técnicas.

A saída para essa contradição inerente ao desenvolvimento do capitalismo foi a globalização e o neo-liberalismo.

Por um lado, o da globalização, foi ampliado o mercado consumidor, via "emergência" de países, e por outro o tio de controle monetário que manteve grandes massas de excluídos (trabalhar para o filé mignon, certo?).

Esse foi o legado do neo-liberalismo pelo mundo afora e aqui com os acréscimos da nossa eterna dependência do capital estrangeiro, dos processos de desvalorização de nossa cultura, de desqualificação de nossas habilidades, de desvalorização do nosso "capital" humano.

Não temos, além e em grande parte por isso mesmo, uma identidade nacional como tem a Bolívia, por exemplo.

Nem o apoio militar como tem a Venezuela do Cel.Hugo Chavez... E mesmo assim, estão longe do que desejamos, não?

Vejamos o que está ocorrendo em Honduras...

Essas são as condições objetivas que se enfrenta.

É conveniente personalizar em Sarneys, Malufs, Quércias, Bornhausens, Maias, etc..etc... todos os males do processo capitalista em si.

Eles estão aí, não surgiram do nada, são fruto desse processo histórico nesse momento.

Aí entra Lula e PT na questão.

Alguém em sã consciência pode imaginar que pretendia-se sair da ditadura através de uma eleição indireta, após todo movimento pela Anistia, reforma partidária, democratização das organizações populares e desembocar em uma Constituinte como a de 88?

Onde estavam os militantes do PSOL, PSTU, PCB nesse momento?

Os hoje militantes do PSOL e PSTU estavam valorosamente dentro do PT. O PCB estava no PMDB.

E nem sequer tivemos força suficiente para imprimir uma radicalização democrática naquele momento.

Temos agora para radicalizar as transformações que queremos apenas porque elegemos o presidente, alguns senadores, deputados e governadores em minoria dentro desse sistema político que não criamos?

Fico imaginando a batalha insana que é travada lá em cima para conseguir os avanços que conseguimos... chamar isso de traição é forçar a barra demais...

Como seria se Serra tivesse sido eleito, dando continuidade às privatizações, mantendo as políticas sociais apenas como fachada, enfrentando a crise com redução de gastos e empréstimo do FMI, e por aí vai...

O maior erro do PT e de Lula foi não ter aberto logo de cara todas as tramóias que foram feitas nesse país.

E nisso temos de dar graças ao "mensalão". O que é a dialética, não é mesmo?

Se por um lado, igualou o PT nesse aspecto aos demais e deu margem a toda campanha golpista que se seguiu até hoje, por outro desengavetou muito do que estava bem engavetado (pena que ainda tenha muito por desengavetar, talvez jamais desengavetemos, principalmente o período da ditadura).

Podemos até especular que o PT e Lula permaneceriam usando das mesmas práticas que usou para se eleger, assim como os demais usaram durante todos os seus governos, caso o "mensalão" não tivesse vindo à tona.

Mas, se Roberto Jefferson abriu a boca é porque viu seus interesses sendo subtraidos, não?

Então, o que vejo é que ao primeiro grito da direita contra um presidente de esquerda, muitos refugiaram-se naquele espaço etéreo e não souberam dar valor ao significado contido nesse processo, retirou-se o apoio necessário na prática.

Vimos lideranças serem linchadas por razões infinitamente inferiores às razões pelas quais nenhum executivo ou parlamentar de outros partidos jamais foram sequer incomodados.

E o que fez boa parte da esquerda? Se uniu às raposas velhas da política nesse linchamento...

E guinou o espectro político para a direita...

O que teriam obtido com um impeachment de Lula? A desmoralização do PT simplesmente? Não, a de si próprios... de toda a esquerda.

O refluxo do movimento teria sido fatal tal qual foi com a ditadura...

Assim, atribuir meramente a Lula e ao PT os ônus da governabilidade é oportunismo...

E exigir uma maior radicalização do processo após ter colaborado para a consequente desmobilização dos movimentos sociais no grito é obstar a recuperação dela.

Espero, sinceramente, que tanto o PT quanto o PSTU, o PSOL , o PCB, etc… tenham o sucesso no mesmo grau que o PT teve no passado ... e, naturalmente, que o PT volte a ter...

Para mim tanto faz quem estará levando a batalha, porque todos os que querem uma sociedade melhor estarão nela de uma forma ou de outra…

Não importa a sigla, importa a meta... mas para isso é preciso ter clareza do que estamos enfrentando, quem é o inimigo real.

E para isso é preciso superar as divergências, os ressentimentos ao menos na política institucional.

É preciso valorizar o que foi obtido, pois nem PSOL, PCB, PSTU, PCB, PCdoB, enfim, nenhum partido de esquerda teria sobrevivido a derrocada do PT, seriam associados a ela por um novo governo PSDB/DEM.

E só isso me faz ter um baita estomago para engolir os sapos que temos todos sido obrigados a engolir.

Hoje se trata de radicalizar a democracia, recuperar o movimento, traçar novas estratégias, mas contra a direita, que procura justamente impedir essa radicalização.

Porque essa radicalização irá trazer novos atores, novos ventos, novas teorias e práticas, e isso não interessa ao poder hegemônico, porque o enfraquece como tem enfraquecido.

Por isso precisam descobrir que Sarney, Collor e que tais que apoiam o governo (claro que com seus interesses porque são parte do poder dominante) não prestam.

Claro que passarão a prestar todos eles quando não tiverem que dividir o poder com a esquerda... qualquer esquerda...

E teremos diante de nós o mesmo quadro que tínhamos 30 anos atrás... sem qualquer necessidade de apoio militar.

É ou não é o atraso?

Agora, se os militantes de esquerda anti-petistas acharem que dão conta do recado e que vale a pena começar tudo de novo, que se pode fazer?

Vamos ter que, não só engolir sapos por mais tempo ainda, como ser ainda mais criminalizados todos nós: MST, MTST, sindicatos, partidos...

E sequer teremos a mudança na política economica que alguns julgam a pedra de toque de tudo isso...

Tendo ao fundo o retorno do poder midiático em toda a sua expressão e à frente o pré-sal...

Infelizmente, é assim que analiso…

Era idealista, não queria que o PT fosse executivo, porque sempre esteve claro que ia ser mais ou menos assim, como de resto seria com qualquer outro... mas percebi que estava errada quando eu vi o que FHC fez com o país...

Espero que não precisemos ver novamente...

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