sábado, 5 de fevereiro de 2011

O cobertor é curto: salários x juros



Francisco Barreira

O pessoal do Capital Financeiro é esperto. Com o auxílio da mídia e de seus profissionais “jornalistas” (só Deus sabe se eles são ingênuos ou excessivamente bem remunerados) convenceram a todos nós que o assim chamado Superávit Primário é uma lei inquestionável da Natureza ou um dos Dez Mandamentos.

Mas, afinal, o que é Superávit Primário? É a parte do Orçamento que o Governo separa para pagar os juros que são o preço do dinheiro e o salário dos banqueiros. “Mateus, primeiro os teus”. Depois, com o que sobrar, é que se vai pensar no seu, no meu, no nosso salário. Ou na sua, na minha, na nossa saúde e assim por diante.

Ano passado, o Setor Público (Governo Federal mais Estados e Municípios) conseguiu juntar R$ 101,696 bilhões, para perfazer esse bendito superávit. A parte federal foi de R$ 78,723 bilhões. O primeiro número representa 2,78% do BIP, inferior à meta (promessa) de 3,1.

3,1% é um número mágico imposto pelo Mercado e seus especialistas e considerado indispensável para que o Governo cumpra sua meta inflacionaria fixada, no ano passodo, em 4,5%. Enfim, quando esses dois números básicos não são alcançados, o Mundo vem abaixo, a mídia anuncia a o Dilúvio e o Banco Central diz que não há outro remédio senão aumentar ainda mais os juros.

É verdade, por exemplo, que quando o governo gasta mais do que o razoável como fez o ano passado (um ano eleitoral) ele tem que consertar o mal feito apertando o cinto para pagar o almoço da véspera. Terá que cortar seus gastos e evitar aumentos salariais mais liberais, para evitar o recrudescimento da inflação que já bate nos 6%.

Mas é verdade, também, que quando os juros passam de um certo limite, eles se transformam num custo adicional da produção e da circulação das mercadorias. Custo este que é repassado para o nosso bolso no preço final do varejo. Quando é assim, o aumento da taxa dos juros deixa de ser remédio para ser combustível da inflação.

E esta é exatamente a vexatória situação do Brasil que já ostentava a taxa de juros (10,75%) mais alta do Mundo, embora nossa economia seja uma da mais badalada e atrativas deste mesmo Mundo, tanto que nosso problema é o de excesso de entrada de capitais, o que leva à indesejada valorização do Real. Mas, não satisfeito, o Banco Central fez o favor de , há dez dias, elevar a taxa para 11,25. Mais do que um acinte isto é um hino à insensatez.

Entretanto, a grande mentira que está subjacente a tudo isso é a de que não há alternativas. A de que não devemos discutir com os bancos. Para começar é necessário duvidar da legitimidade da dívida. Já existe uma vastíssima literatura acadêmica e jornalística demonstrando que a origem e acumulação dessa dívida está num grande golpe aplicado pelas principais corporações financeiras com a conivência do FMI.

Isso ocorreu nos anos 70/80 do século passado, quando, em articulação com os dois grandes coques dos preços do petróleo, os países do então chamado Terceiro Mundo, foram constrangidos e seduzidos a se endividarem até o pescoço, assumindo dívidas com juros baixíssimos. Todo mundo entrou nessa. E então, no meio do caminho,unilateralmente, os juros foram elevados de forma exponencial. As taxas forma multiplicadas por cinco em poucos anos e a quebradeira foi geral.

Nós, particularmente, perdemos duas décadas, com desenvolvimento pífio ou negativo. As gerações desse período foram sacrificadas e torramos nosso patrimônio público na onda das privatizações. O argumento sempre utilizado era o de que não havia outra saída.

Entretanto, aqui ao lado, a Argentina adotou o caminho inverso. Decretou a Moratória da Divida e chamou os credores para conversar. Foi um escândalo: “Calote!” gritou a mídia mundial e a mídia brasileira, submissa ecoou. No entanto, conformados, os credores acabaram sentando para negociar. O país pode, então, pagar a dívida sem sacrificar seu desenvolvimento e a qualidade de vida da população.

E é por isso que a nação vizinha ostenta há dez anos um crescimento médio de 7% ao ano, (contra 3% do Brasil no mesmo período) e Néstor Kirchner é hoje um dos maiores ídolos da história argentina, só superado por Juan Perón. Finalmente, é por isso que sua viúva, Cristina Kirchner, deverá ser reeleita em novembro próximo.

A tudo isso, gente do tipo Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardemberg dão, marotamente, o nome genérico e pejorativo de populismo. Populismo é uma espécie de recipiente onde eles jogam tudo aquilo de que não gostam ou não sabem explicar.

O Brasil adotou o caminho do bom-mocismo que é a cara do FHC e pagou um preço altíssimo. Porém, agora o pior já passou e do ponto de vista do Governo, não dá mais para mexer no modelo que aí está. Dilma Rousseff é prisioneira dessa circunstância histórica.

Todavia, essa circunstância não amarra os petistas que ainda honram sua bandeira original, nem muito menos os líderes sindicais. É preciso questionar. Se o cobertor é curto, que ele proteja ou desproteja, na mesma proporção aos juros e aos salários. Por que só o trabalhador deve pagar a conta?

Mas não é só isso: nesse início de ano, a insuspeita primeira ministra da Alemanha, Angela Merkel, em nome de uma Europa angustiada pela quebradeira generalizada (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália), chamou os principais banqueiros europeus e americanos e lhes disse o que Kirchner dissera há dez anos: Vocês provocam esta crise com sua insensatez especulativa e agora terão que pagar pelo menos uma parte da conta. Vamos negociar.

Leitão e Sardenberg nessa hora escondem-se e não informam nada disso a seus leitores. E não informam, porque, para serem coerentes, teriam que dizer que Merkel é “caloteira e populista”.

http://fatosnovosnovasideias.wordpress.com/paraentenderacrise/

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