Por Rafael Argullo
Tradução de Omar L. de Barros Filho Outro dia vi Il divo, o filme de Paolo Sorrentino dedicado, como reza o subtítulo, à "vida espetacular de Giulio Andreotti". Não sei que recepção terá aqui em sua estreia, [NdT: o autor escreve em Barcelona], pois, apesar dos paralelismos que frequentemente se estabelecem entre a Espanha e a Itália, o olhar de ambos os países sobre seus respectivos passados é muito diferente. Gostei do filme, dotado de uma forte personalidade estética que em alguns momentos me recordava Fellini e, inclusive, Buñuel. Com uma linguagem muito diferente ao do também recente Gomorra, de Matteo Garrone, ambos têm em comum a valentia e a recuperação do bom cinema político italiano. Em Il divo o protagonista absoluto é Andreotti, um personagem que sigo com muita atenção desde que vivi em Roma lá pelos anos em que assassinaram o outro grande protagonista do filme, este quase invisível, Aldo Moro. A recente história italiana está marcada por assassinatos difíceis de esquecer e que seguem marcando a aparentemente tragicômica vida política da era Berlusconi: a obscura morte de Pasolini; os atentados mafiosos contra o general Della Chiesa e o juiz Falcone; o suicídio de Calvi, o “banqueiro de Deus”, em uma ponte do Támesis e, acima de todos, a execução do primeiro-ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, depois de um angustiante sequestro de várias semanas, um assassinato que mudou o rumo da política italiana. Nenhuma dessas mortes – nem mesmo, em seu momento, a de Pasolini – pareceu alheia a Andreotti. O sete vezes chefe do Governo italiano foi acusado, por suas cumplicidades com a Máfia, de estar por trás dos homicídios cometidos contra Falcone e Della Chiesa, e também, por suas conivências, com a Santa Sé, a qual quis encobrir, e foi apontada como instigadora do suicídio do banqueiro Roberto Calvi, um “suicídio” com todos os indícios de involuntário. Sem sair da Cidade do Vaticano, e apontando mais ao alto, não faltou quem o colocasse na trilha do suposto assassinato do papa João Paulo I como, de um modo elíptico, embora suficientemente explícito, encarregou-se de mostrar Coppola em um dos episódios de El padrino (O poderoso chefão). Para muitos, essas e outras sangueiras italianas caíram sobre a cabeça de Andreotti nas três últimas décadas do século XX. Entretanto, por nenhuma delas sofreu mais reprovações do que pela execução de Aldo Moro, seu companheiro no Partido Democrata Cristão, mas seu rival ideológico dentro desta organização. Os matadores, está claro, foram os brigadistas vermelhos que chegaram assim ao capítulo final de seu delírio revolucionário, mas Andreotti sofreu reprovações desde o início por não colocar os meios que tinha ao seu alcance a serviço de uma negociação que poderia salvar a vida do sequestrado. Os próprios familiares de Aldo Moro nunca perdoaram sua atitude, apesar de, anos depois, terem desobrigado de culpa os executores materiais do magnicídio que mostraram arrependimento. Para uma boa parte dos italianos, Andreotti sempre esteve, portanto, no tenebroso centro do furacão. Daí que os jornais, sobretudo os contrários, naturalmente, dedicaram-lhe significativos apelidos: O Papa Negro, O Maligno, Belzebu e uma longa lista de nomes mais inquietantes que pejorativos. Não obstante, Andreotti também recebia outras designações menos duras, como O Astuto, ou diretamente carinhosas, como O Divino Giulio. Gozava e goza de tantas alcunhas diferentes que, inclusive na atualidade, quando alguém cita sua frase mais famosa – "o poder corrompe especialmente a quem não o tem"– sempre se torna difícil averiguar se a referência se apoia na condenação ou na admiração. Esta suprema e perturbadora ambiguidade do personagem criado por Andreotti para si próprio, e referendada pelos demais, é colocada agudamente às claras por Paolo Sorrentino em Il divo. O personagem Andreotti, com as mãos espectralmente manchadas de sangue, adquire perfis shakespearianos, mesmo porque, negando-se a tirar a máscara, mantém até o final a teimosa rigidez de uma consciência que permaneceu imutável ao longo de 90 anos de vida e 70 de poder. Esfinge terminal, Andreotti, entre processos e mais processos, e entre duvidosas absolvições, nega-se a revelar sequer uma parte de seu enigma e se limita a repetir insistentemente que não crê no destino, mas sim na "vontade de Deus". Uma espécie de mantra com que tratou de enfeitiçar a sociedade italiana com resultados não de todo desfavoráveis: em que pesem todos os indícios e acusações, apesar das confissões de mafiosos arrependidos, e dos múltiplos julgamentos, O Divino Giulio sempre escapuliu. Belzebu é senador vitalício. Como corresponde.
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